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Santa Eufémia- PENEDONO

PENEDONO- Santa Eufémia[1]

 O santuário de Sta. Eufémia fica situado na paróquia de Penedono, vila e sede de concelho com o mesmo nome. Na fronteira entre o Douro e a Beira, residentes de ambos os lados ali se encontram, hoje como ontem, para rezar, agradecer e suplicar, mas também para conviver e fazer a festa. Nos últimos jornais muito já foi dito sobre o passado deste espaço sagrado, local de encontro e referência obrigatória no calendário das gentes da região. Algumas notas.

 Uma novena preparatória

Antecedendo a grande festa do dia 16, a comunidade participa numa novena preparatória, entre os dias 7 e 15. Os automóveis facilitam os acessos diários, mas há gente das redondezas que vem a pé, sobretudo nos últimos dias. Este ano, olhando o exemplo de vida de Sta. Eufémia, as meditações andaram à volta “do ouvir para obedecer”. Porque só obedece quem ouve. E ninguém obedece a Deus se não for capaz de ouvir o que o Senhor lhe diz.

Diariamente, a assembleia rezou a oração de Vésperas, antes da celebração eucarística, e teve a oportunidade de acercar-se do sacramento da Reconciliação. Numa sala anexa, no rés–do-chão da casa do Ermitão, esteve patente uma exposição com réplicas de uma via-sacra, cujo autor é um pintor polaco. Ali podemos contemplar, nas estações da via dolorosa, o caminho de Jesus, acompanhado de pessoas e factos da história recente do mundo, com particular destaque para a Polónia.

Ao longo dos dias, no interior da capela, passando pela sacristia, ou no exterior, a pé ou de joelhos, muitos foram aqueles que testemunharam a sua fé e deram provas da sua gratidão. Aos ex-votos que podemos admirar numa das paredes da capela-mor, para expressar reconhecimento perante a intercessão da Sta. Eufémia, juntam-se, nos nossos dias, muitos objectos de cera, em cumprimento de promessas feitas.

A festa com os idosos

 Na tarde de quinta-feira, 11 de Setembro, mais de 600 utentes de 33 instituições de solidariedade social (lares, centros de dia e de convívio) de Penedono e dos concelhos vizinhos, acompanhados por funcionários dedicados e membros das respectivas Direcções, peregrinaram até este local. À sombra dos plátanos, confortavelmente sentados, todos participaram na Eucaristia.

No final, uma merenda e tempo livre para entrar na capela, cumprir promessas, deixar alguma esmola e pedir a intercessão de Sta. Eufémia. Mas oportunidade também para recordar outros tempos, outras situações de vida e outras pessoas.

Juventude presente

Os mais novos também vêm à romaria, também rezam e agradecem. Numa região onde a densidade populacional diminui e onde os jovens escasseiam, há iniciativas que os congregam e actividades onde assumem protagonismo: no grupo coral, na música, nos Escuteiros…

Neste particular, destaque para a Banda dos Bombeiros Voluntários de Penedono, fundada e dirigida pelo Padre Carlos Carvalho. Com elementos oriundos de diversos lugares, participaram activamente na festa, animando três celebrações eucarísticas e actuando, juntamente com a Banda de Nagoselo, numa das noites. A música juntou-os e continua a ser uma sadia ocupação.

Um espaço acolhedor

Os peregrinos são testemunhas das grandes mudanças que se operaram nos últimos anos, graças ao trabalho empenhado de muitos. Ocupando cerca de oito hectares, o santuário oferece comodidades únicas a todos quantos ali acorrem: a capela sempre bem adornada e acolhedora, um recinto (explanada) devidamente preparado para celebrações campais, um espaço exterior para as velas, um espaço anexo com lembranças e objectos de cera para cumprimento de promessas, rampa de acesso para pessoas com mobilidade reduzida, o adro envolvente atapetado com uma relva bem tratada, sombras oferecidas por árvores devidamente alinhadas, canteiros de flores, mesas e bancos disponíveis para conviver, um assador e um bar de apoio, bons acessos e muito espaço para estacionamento, onde sanitários devidamente sinalizados. Ali perto, também o espaço reservado aos vendedores e às diversões da feira.

Gente empenhada

 Louvando o trabalho e dedicação de quantos contribuíram, ao longo dos séculos, para a edificação deste espaço e a celebração da fé, importa sublinhar o esforço e a vontade do jovem pároco actual, Padre Luciano, um estudioso da história local e grande divulgador do culto à virgem e mártir Sta. Eufémia. Acompanhado por gente empenhada e disponível que, nestes dias, não pára nem contabiliza as horas que ali passa, e vai orientando quem chega, agradecendo a todos, convidando sem cessar, mostrando o que foi feito e referindo o que falta concluir.

Os peregrinos e outros que por ali passam nestes dias são testemunhas de um trabalho em equipa que traduz o amor de todos por Sta. Eufémia, faz sobressair a importância da união e tudo torna possível.

 Zona pastoral

Esta zona pastoral, integrada no arciprestado de Meda – Penedono – S. João da Pesqueira – Vila Nova de Foz Côa, não tem muita população (cerca de 3 mil residentes), é formada por nove paróquias e conta com quatro párocos residentes: Padres Carlos Carvalho e Francisco Marques, que residem na Beselga, Padre Guilherme, a residir no Souto, e Padre Luciano, a residir em Penela da Beira. Alguns destes sacerdotes assumem também a paroquialidade de paróquias pertencentes a zonas pastorais vizinhas.

A presença de todos em ocasiões como esta, a ajuda mútua sempre garantida, o diálogo franco e amigo, o convívio oportuno e alargado contribuem para o ambiente fraterno que se vive e observa.

Mas importa também sublinhar o carinho e a atenção que estes párocos dedicam a dois sacerdotes já jubilados e residentes nestes espaços: Mons. José Gomes, residente em Penela, e Mons. Henrique, residente na Póvoa.

Dia da festa

A chuva visitou o santuário ao final da tarde do dia 15 e ficou até ao fim da festa. Apesar de menos numerosos do que em anos anteriores, muitos foram os que enfrentaram a chuva e o vento e viveram plenamente as celebrações. O nosso bispo, D. António Couto, presidiu à Eucaristia da festa, vivida no dia 16 de Setembro, data em que Sta. Eufémia foi martirizada. A celebração decorreu na capela do santuário, uma vez que a chuva e o vento não permitiram a utilização da grande esplanada existente ali perto.

No final da Missa do dia 16, uma entreaberta permitiu que a procissão se realizasse, para alegria de todos.

Na homilia, partindo dos textos bíblicos do comum dos mártires e fazendo alusão ao tempo menos soalheiro que se fazia sentir, D. António Couto convidou toda a assembleia a “saber ler nos tempos que Deus dá, o amor, o carinho e a dádiva”; também através das gotas da chuva. E a todos lembrou que “as peregrinações são importantes porque nos fazem andar, encontrar e ver o amor de Deus por detrás de tudo. Peregrinar implica saber que somos frágeis, feitos de barro. E a beleza da nossa vida é a nossa fragilidade… Somos vasos de barro que adoecem, sofrem, são amados, morrem. Mas é uma maravilha, um milagre contínuo, contemplar o amor de Deus em nós e à nossa volta.

Importa saber ver e ler. É uma graça, juntos, descobrirmos que somos próximos, irmãos. Peregrinar enriquece-nos porque encontramos os outros e a natureza, que nos mostram as maravilhas de Deus”. Depois falou-nos de Santa Eufémia, para caracterizar a sua vida como justa e frágil, de alguém que se expôs por causa da sua fé e que foi martirizada por causa dos maus sentimentos dos seus contemporâneos. E dizer “mártir” é sinónimo de “testemunha”.

A este propósito, o nosso bispo, falou da testemunha como sendo “alguém que se compromete”, alguém que atesta sobre os acontecimentos, as palavras, a cruz e a ressurreição de Jesus. Dito de outra maneira, “alguém envolvido na história de Jesus”. E este estar comprometido e envolvido tem como consequência uma prática que se assume e protagoniza: “o discípulo de Jesus, a testemunha que com Ele se compromete, tem que testemunhar, onde quer que se encontre, o perdão, o amor, a ternura, a paz e a misericórdia de Jesus”.

Deixar-se envolver é muito mais do que saber que algo aconteceu, é “viver a história de Jesus”. Por isso, o mártir é “a testemunha de uma história que não é a sua”, mas é comprometer-se com essa história para a tornar presente e visível nas circunstâncias em que se vive. Sta. Eufémia foi até ao fim, mostrando ao nosso tempo e a todos os peregrinos que é possível, “com coragem, alegria e bondade seguir Jesus”.

Por fim, convidou todos os fiéis a tornarem-se “cristãos apaixonados” para que “Cristo esteja sempre presente” e para que “ninguém nos seja indiferente”. Porque um “cristão apaixonado” está para lá do mero cristão praticante ou não praticante; é alguém que faz a diferença com a sua vida, discípulo consciente e responsável que anuncia Cristo pela forma de ser e de estar, sempre. E, neste peregrinar, Sta. Eufémia “ensina-nos a dizer e a fazer bem”.



[1] In: Jornal Voz de Lamego de 23 de Setembro de 2014, ano 84/43 nº 4281.

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