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Carta Pastoral de D. António José da Rocha Couto VAMOS JUNTOS CONSTRUIR A CASA DA FÉ E DO EVANGELHO

Carta Pastoral de D. António José da Rocha Couto

VAMOS JUNTOS CONSTRUIR A CASA DA FÉ E DO EVANGELHO

Era uma Igreja jovem, leve e bela,

tão jovem, leve e bela,

que as pessoas lutavam por entrar nela!

 

1. Vale sempre a pena começar por receber, com particular atenção e carinho, o retrato da Igreja-mãe de Jerusalém, tal como nos chega pela paleta de tintas do Autor do Livro dos Actos dos Apóstolos:

«2,42Eram perseverantes (proskarteréô) no ensino dos Apóstolos e na comunhão, na fracção do pão e na oração. […] 44Todos os que acreditavam (pisteúontes) estavam no mesmo lugar e tinham tudo em comum (koiná). […] 46Dia após dia eram perseverantes (proskarteréô) unanimemente (homothymadón) no Templo, e partiam o pão em cada casa, tomando o alimento com alegria grande (aggalíasis) e simplicidade de coração, 47louvando a Deus e tendo graça (cháris) junto de todo o povo. E o Senhor acrescentava dia após dia o número dos que estavam a ser salvos» (Act 2,42.44.46-47).

«4,32A multidão dos que acreditavam (pisteúontes) era um só coração e uma só alma (kardía kaì psychê mía), e ninguém dizia serem só seus os seus pertences, mas tudo era comum (koiná). 33E com força (dýnamis) grande, os Apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e uma graça (cháris) grande estava com todos» (Act 4,32-33).

«5,12Das mãos dos Apóstolos aconteciam sinais e muitos prodígios entre o povo […]. 14Mais e mais crentes (pisteúontes) aderiam ao Senhor, uma multidão de homens e mulheres, 15de tal modo que levavam os doentes para as praças, sobre os seus leitos e macas, para que, passando Pedro, ao menos a sua sombra cobrisse algum deles» (Act 5,12.14-15).

Trata-se de uma visita guiada à primeira Catedral da Igreja nascente – mas com ramificações em todas as casas, em todos os corações –, bem assente em quatro colunas: o ensino dos Apóstolos (1), a comunhão fraterna (2), a fracção do pão (3) e a oração (4). Com a boca [= «uma só boca» (en henì stómati: Rm 15,6)] cheia de louvor, os olhos de graça, as mãos de paz e de pão, as entranhas de misericórdia, a comunidade bela crescia, crescia, crescia. Não admira. Era uma comunidade jovem, leve e bela, tão jovem, leve e bela, que as pessoas lutavam por entrar nela!

2. É uma comunidade bela, fecunda e feliz, que cuida de si, da sua imagem, mas que não está voltada sobre si, mas para fora, luz que alumia os que estão na casa (toîs en tê oikía), na lição do Evangelho da «formação», de Mateus 5,15, luz que alumia os que entram na casa (hoi eisporeuómenoi), na lição do Evangelho da «missão», de Lucas 8,16; 11,33, dando testemunho da sua bela identidade, sem peias nem vergonha, no meio de um mundo hostil e agressivo. Testemunho diz-se em alemão Zeugnis, e testemunhar diz-se zeugnen. Mas zeugnen significa também gerar, sendo mesmo o seu primeiro significado. Então, testemunhar é gerar novos filhos e filhas (BENTO XVI, Porta Fidei, n.º 7), fazer nascer com o nosso testemunho e a dádiva da nossa vida novas vidas cheias de Cristo, novas teias de esperança e de sentido.

3. É assim que o Apóstolo Paulo se dedica a anunciar o Evangelho, de forma personalizada, calorosa e a tempo inteiro, mãe e pai dos seus filhos (1 Ts 2,7-12), que gera (gennáô) (1 Cor 4,15; Flm 10) e dá à luz (ôdínô) (Gl 4,19) e zela e vela sobre eles com afã e carinho, em casa e no caminho, até os desposar com Cristo (2 Cor 11,2), até à sua configuração com Cristo (Gl 4,19), até à medida da estatura da plenitude de Cristo (Ef 4,13).

4. O Beato Papa João Paulo II deixou escrito, numa bela linguagem afectuosa, comovente e profética, que a paróquia é «a própria Igreja que vive no meio das casas dos seus filhos e das suas filhas» (Exortação Apostólica pós-sinodal Christifideles Laici [30 de Dezembro de 1988], n.º 26). E já tinha dito alguns anos antes, no mesmo sentido, que a vocação da paróquia «é a de ser a casa de família, fraterna e acolhedora» (Exortação Apostólica Catechesi tradendae [16 de Outubro de 1979], n.º 67).

5. Suponho que fica claro que a imagem que transvaza da comunidade jovem, leve e bela do Livro dos Actos dos Apóstolos, bem como a imagem da paróquia que ressalta dos textos citados do Beato Papa João Paulo II, se confundem e ambas são remissíveis para o Pai do Céu de quem, por pura graça, somos filhos adoptivos (hyiothesía) (Rm 8,15 e 23; Gl 4,5; Ef 1,5), para a Luz verdadeira de que somos reflexo (2 Cor 3,18), para o Bom Pastor de quem devemos ser transparência pura no que à bondade, proximidade, total dedicação e entrega a cada um diz respeito.

6. Neste sentido, sei e sinto que a nossa Igreja diocesana precisa sempre mais urgentemente de Padres dedicados de coração inteiro e a tempo inteiro à sua vida de Pastores e à causa do Evangelho, segundo o estilo feliz, apaixonado, ousado, pobre, despojado, próximo e dedicado do nosso Bom Pastor, Jesus Cristo. Dito de outra maneira: precisamos de Padres com a sua vida bem assente nas quatro colunas já atrás apresentadas: ensino dos Apóstolos (1), comunhão fraterna (2), fracção do pão (3), oração (4), não de vez em quando, mas com a tenacidade de quem está lá de pé todos os dias (proskartérêsis) (Ef 6,18), dando-se a si mesmo, e não apenas o supérfluo. O supérfluo deixa a vida intacta, acautelada. Não tem a marca de Deus. O estudo que a Universidade Católica levou recentemente a efeito sobre Identidades Religiosas em Portugal: representações, valores e práticas (2012) veio fazer-nos ver melhor que é preciso valorizar o Padre, não tanto como fornecedor de bens e serviços, mas sobretudo como figura em quem o Povo de Deus se possa rever e com quem se possa identificar. Não é, portanto, caríssimos Padres, a função e o nosso lado de funcionários que levam alguém a querer seguir-nos e a identificar-se connosco. É a unção e o nosso lado de missionários que darão frutos de identificação.

7. Caríssimos Padres – e uso propositadamente o termo «Padres» (Pais) – da nossa Diocese de Lamego. Temos de formar um Corpo vivo e unido e reunido (êthroisménoi: part. perf. pass. de athróizô) (Lc 24,33), não obra nossa, portanto, mas de Deus, atento a Deus e sob o seu impulso e alento carinhoso e criador (homothymadón: homós [= mesma] + thymós [= alma] > thýô [= soprar]), mas igualmente atento aos irmãos no sacerdócio e aos filhos e irmãos que, por amor, Deus nos confiou. Em que colunas assenta a vida do nosso presbitério de Lamego? E quais são as colunas em que assenta a nossa vida de Pastores? E sobre que colunas e fundamentos ajudamos a construir a(s) comunidade(s) que, por amor, Deus nos confiou? Estamos preocupados em constituir grupos de missão ou de evangelização? Estamos sensibilizados para constituir grupos de caridade? Como estão os índices de oração e de formação das nossas comunidades? Preocupamo-nos com isso? Valorizamos os fiéis leigos? Como escolhemos e formamos os catequistas, os leitores, os acólitos, os ministros da comunhão, os membros do Conselho Económico e Pastoral, e outros cooperadores? Participamos nos exercícios espirituais e nos tempos de actualização-formação permanente? Lemos, estudamos e amamos a Palavra de Deus e os documentos do magistério da Igreja? Amamos a Igreja, nossa Mãe? O Evangelho «toma conta de nós», incomoda-nos e desinstala-nos, ou somos nós que vamos acomodando e instalando o Evangelho?

8. À entrada do Ano da Fé e às portas da XIII Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos que se debruçará sobre «A nova evangelização para a transmissão da fé cristã», não pode a nossa Diocese de Lamego deixar de se empenhar numa maior fidelidade no seguimento de Jesus. Não podemos desperdiçar este tempo de graça (kairós), isto é, tempo grávido de alegria e de esperança, entenda-se, tempo de enchente da Palavra de Deus que, inundando a nossa vida, reclama a nossa resposta amante, e transforma a nossa vida. Convoco todos os Padres e toda a Diocese para abrirmos de par em par as portas da escuta qualificada da Palavra de Deus, da formação, da fracção do pão, da comunhão e da oração. Escolas de fé, acolhimento, formação da fé, vivência e transmissão da fé constituem o grito que mais se levantou no chão eclesial aquando da auscultação das pessoas no processo sinodal «Repensar juntos a Pastoral da Igreja em Portugal».

9. Ensino dos Apóstolos, fracção do pão, comunhão, oração. Todos, Padres e Fiéis Leigos, participando da mesma comunhão, formando um vasto e intenso tecido reticular. Não nos podemos esquecer que somos naturais da estação da ceifa, do tempo da alegria, como ensina a lição do Salmo: «Os que semeiam em lágrimas, em júbilo ceifarão (therízô);/ andando vão e chorando, levando o saco da semente,/ mas vindo vêm com alegria trazendo as espigas» (Sl 126,5-6). É para este tempo novo da alegria, da ceifa e do verão (théros), que somos desafiados a mudar-nos: «Não dizeis vós que faltam ainda quatro meses para vir a ceifa (therismós)? Pois eu digo-vos: “Erguei os vossos olhos e contemplai (theáomai) os campos: estão brancos (leukaí) para a ceifa (therismós)”» (Jo 4,35). E é sempre com os olhos postos nesse tempo novo, nesse campo novo, neste canto novo, que somos convidados a rezar: «A ceifa (therismós) é grande, mas os trabalhadores são poucos. Pedi, pois, ao Senhor da ceifa (therismós) que envie trabalhadores para a sua ceifa (therismós)» (Mt 9,37-38). Sem a unção da Alegria, que trabalhadores somos? Quem quererá seguir a nossa via? Que cooperadores Deus nos dará?

10. Bem nos adverte S. Pedro, caríssimos Padres, de que este «é o tempo de graça (kairós) de o julgamento (tò kríma) [a crise (hê krísis)] começar pela casa de Deus» (1 Pe 4,17). Precisamos de estar unidos e reunidos. Precisamos de ter a funcionar bem os principais órgãos da nossa vida diocesana: Conselho Episcopal, Conselho Presbiteral, Conselho Arciprestal, Conselho Pastoral. Precisamos de agilizar os primeiros. O último, o Conselho Pastoral, precisamos de o formar com a urgência possível. Como precisamos de valorizar igualmente o Conselho de Coordenação Pastoral articulado em Comissões, Departamentos e Serviços Diocesanos dinâmicos e funcionais, o Conselho de Assuntos Económicos, que nos possa ajudar a valorizar os bens da Diocese, a Comissão de Bens Culturais e Patrimoniais e Arte Sacra, que vigie atentamente todas as edificações, reedificações, ampliações, restauros em espaço sagrado, interior e exterior.

11. É igualmente importante e necessário rever a nossa relação com a Cúria Diocesana no que se refere a Colectas Obrigatórias, actualizações de estatutos e ficheiros, intenções de missa, aprovações e licenças várias. Servir com amor Jesus Cristo, e servir a Igreja, nossa Mãe, com igual dedicação, passa também por pormos a nossa fidelidade nas pequenas coisas. Também estas realidades nos devem merecer toda a atenção, uma vez que bem sabemos que, no caminho que diariamente trilhamos, cada passo conta, cada gesto conta, cada palavra conta, cada copo de água conta.

12. Termino esta Carta Pastoral, pedindo a toda a Igreja Diocesana e aos seus primeiros servidores, o que S. Paulo pediu, no seu tempo, aos cristãos de Roma: «Lutai comigo na oração» (Rm 15,30).

Que o Senhor da Ceifa nos guie sempre, nos anime e ilumine os nossos caminhos. Que São Sebastião e Santo Agostinho intercedam por nós, e que Maria Santíssima, Mãe de Deus e nossa Mãe, vele sempre por todos os seus filhos espalhados no chão abençoado da nossa Diocese de Lamego.

Lamego, 15 de Setembro de 2012, Memória de Nossa Senhora das Dores

+ António Couto

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