Close

O culto à virgem mártir santa Eufémia em Portugal

O culto à virgem mártir santa Eufémia em Portugal 

(artigo publicado – MOREIRA, Luciano Augusto dos Santos – O culto à virgem mártir santa Eufémia em Portugal. In: Revista Santuários – Cultura, Arte, Romarias, Peregrinações, Paisagens e Pessoas. Volume 1, Numero 1, janeiro–junho 2014, ISSN 2183-3184, pp. 209-216)

1. 1– As origens

Em meados do século XVII, Jorge Cardoso no seu Agiologio Lusitano ao falar de santa Eufémia diz que: “Ouve sempre me Portugal devoção com esta sua Sancta compatriota, que tem nelle muitos templos em sua honra levantados, onde há images tam antigas, como milagrosas, a saber S. Eufemia de Ranhados junto a Viseu, S. Eufemia de Penedono, Bispado de Lamego, & S. Eufemia de Penella no de Coimbra, todas três avogadas para verrugas, lobinhos, inchaços, & quebraduras. E outrosi lugares de seu nome, como S. Eufemia de Matança, S. Eufemia junto a Algodres, & entre Pinhel, & Tracoso, todos tres na Beira. E assi mesmo não faltão naturaes, que o impõem a suas filhas, por devoção desta Sacta…” (Cardoso, 1657: 548).

Nos relatos das memórias paroquiais de 1758, em várias paróquias os seus párocos informam sobre festas e romarias de grande afluência de crentes a capelas erigidas em honra de santa Eufémia. Isto prova que a grande devoção que o povo português, especialmente o das Beiras, tem a santa Eufémia já está enraizada há muitos séculos (Moreira, 2012: 95-95). Contudo não sabemos como chegou a Portugal o seu culto, nem como ele se espalhou.

Graças aos estudos de Pierre David (David, 1942, 1947) e Avelino de Jesus da Costa, (Costa, 1950, 1997) sobre as paróquias e os calendários litúrgicos portugueses medievais, podemos assinalar já no ano de 1036 a presença de santa Eufémia como titular de uma igreja-capela no território de Portugal, número que sobe para 4 no século XII e para 7 no século XIII. Da mesma forma, encontramos a data em que é celebrada, a sua memória a 16 de Setembro nos vários calendários litúrgicos portugueses e espanhóis medievais, tais como: o missal de Mateus anterior ao ano 1176, o Breviário de Soeiro dos princípios do século XV e nos vários missais Bracarenses de meados do século XVI.

Apesar de não ser dos oragos mais presentes nas paróquias portuguesas, santa Eufémia é a padroeira de 13 paróquias de Portugal na atualidade; distribuídas por 11 dioceses: 2 na diocese de Braga e da Guarda e 1 paróquia nas dioceses de Bragança/Miranda, Coimbra, Lamego, Leiria-Fátima, Lisboa, Portalegre-Castelo Branco, Santarém, Viana do Castelo e Vila Real. (Anuário Católico, 2004).

São 3 as paróquias mais antigas que têm como orago santa Eufémia em Portugal, segundo a lista criada com base nas Inquirições de 1220-09: santa Eufémia de Penela, Agilde e Prazins (Boisselier, 2012: 66-103). Este número aumenta para 7 passados cem anos. Em 1320, além das 3 paróquias já referidas, encontramos 4 novas paróquias: santa Eufémia de Calheiros, Cós, Bragada e santa Eufémia no termo de Pinhel (Boisselier, 2012: 126-203).

Antes da nacionalidade, é também citada uma igreja dedicada a santa Eufémia, em Montemor-o-Velho, igreja que desapareceu nos fins do século XIX (David, 1947: 238; Livro Preto, 1999: 481).

A paróquia de Santa Eufémia, no termo de Pinhel, apesar de manter na atualidade a mesma designação, tanto a nível eclesiástico como a nível civil, é um dos poucos casos em que se dá mudança de orago em meados do século XIX, para Nossa Senhora da Nazaré.

O mesmo aconteceu em Lavandeira, que sendo um lugar da paróquia de Anciães, ao tornar-se paróquia independente em 1734, muda o orago de santa Eufémia da pequena capela a ela dedicada, para São Salvador, sendo este o orago atual, embora continue o culto a Santa Eufémia (Rodrigues, 2002: 39). Na paróquia de Ranhados – Viseu, criada em 1965, e que tem por orago Nossa Senhora da Ouvida, existiu uma capela medieval dedicada a santa Eufémia, que já desapareceu, mas a imagem de santa Eufémia, continua a ser venerada no dia 16 de setembro por milhares de devotos na igreja matriz (Gonçalves, 2008).

Não deixa de ser interessante notar, que, embora a sul do rio Mondego existam poucas capelas dedicadas a santa Eufémia, se contem 4 as paróquias que a têm como orago: Santa Eufémia de Penela – Penela, Cós – Alcobaça, Rio de Moinhos – Abrantes, Chancelaria – Torres Novas e Santa Eufémia – Leiria, sendo esta última apenas criada como paróquia em 1946 (Marques, 1995, 106-113).

1.2 – A distribuição do culto

Distribuição do Culto de Santa Eufémia - Mapa de Portugal

Distribuição do Culto de Santa Eufémia – Mapa de Portugal

Pelas pesquisas que fizemos para a elaboração deste estudo podemos afirmar que, o culto a santa Eufémia em Portugal está presente sobretudo na região da Beira, na zona que fica a sul do rio Douro e a norte do rio Mondego, abrangendo os distritos de Viseu, Guarda, Aveiro e Coimbra, embora nos distritos de Bragança e Porto exista algum culto significativo.

Os dados de que dispomos para poder fazer esta afirmação são a inventariação das capelas, festas e romarias dedicadas a santa Eufémia em todo o Portugal. Este inventário foi elaborado, com base nos arrolamentos levados a cabo após a publicação da Lei da Separação em 1911, quando todos os bens da Igreja católica foram nacionalizados pelo Estado, com base em pesquisas feitas em obras de carácter geral, na internet e, sobretudo, em informações obtidas por contactos telefónicos, com os mais diversos párocos de todo o país que nos foram dando pistas sobre o culto de santa Eufémia em Portugal e a quem também mandámos um inquérito com uma série de perguntas sobre o mesmo assunto.

Da recolha de todas estas informações, inventariámos cerca de 109 locais de culto a santa Eufémia, em todo o país. Estes locais de culto dividem-se da seguinte forma: as 13 paróquias que têm como orago Santa Eufémia, 93 capelas com a sua invocação e as 3 paróquias (Santa Eufémia, Ranhados e Lavandeira) que apesar de hoje já não terem santa Eufémia como orago principal, a têm na igreja matriz, nas quais existe um culto muito significativo.

A nível geográfico, a edificação das 93 capelas dedicadas a santa Eufémia, estão distribuídas por 10 distritos a saber: Viseu com 35; a Guarda com 19; Coimbra com 13; Aveiro e Bragança com 8; o Porto com 5; Braga com 2 e os distritos de Lisboa, Castelo Branco e Vila Real com uma capela apenas.

Quanto à distribuição das capelas por dioceses, Viseu tem 28, a Guarda 16, Coimbra 14, Lamego 11, Bragança-Miranda 8, Aveiro e Porto 6, Braga 2 e Lisboa e Vila Real uma em cada.

Quanto aos concelhos com mais capelas edificadas: Viseu tem 6; seguido do Satão com 5; Mangualde com 4; Seia, Tábua, Moimenta da Beira e Macedo de Cavaleiros com 3; Trancoso, Tondela, Terras do Bouro, Sever do Vouga, São Pedro do Sul, São João da Pesqueira, Penalva do Castelo, Pampilhosa da Serra, Lamego, Gouveia, Celorico da Beira e Bragança com 2. Seguem-se 40 concelhos que têm apenas uma capela. Destas 93 capelas dedicadas a santa Eufémia, 7 são particulares.

Sem o podermos afirmar com total certeza, uma vez que não dispomos de fontes absolutas e completas, mas dada a grande quantidade de capelas na sua proximidade, tudo nos leva a crer que um dos berços da irradiação do culto de santa Eufémia em Portugal tenha partido da zona de Viseu, mais propriamente de Ferreira de Aves.

Em Ferreira de Aves, foi fundado pelos anos 1113-1120, por Soeiro Viegas, uma humilde casa monástica sob a regra de são Bento, (Ribeiro, 1995: 3-10) edificada junto a uma capela já existente dedicada a santa Eufémia “… já desde o principio do Reino havia mais terras com o nome de Ferreiras. Como quer que seja, elle he certo, que Fernão Jeremias foi hum dos Fidalgos, que do Reino de Leão vierão a Portugal com a Rainha D. Thereza, mulher do Conde D. Henrique, a qual o casou em Ferreira com D. Maria Soares, filha de Soeiro Mega, fundador de hum Mosteirinho para Eremitas, junto á CapeIa de Santa Eufemia, (que já no seu tempo era antiga) o qual sua neta D. Maior Soares ampliou, enriqueceo, e finalmente transformou em Mosteiro de Religiosas de São Bento…” (Viterbo, 1798: 450).

Contudo, não é caso único em Portugal. Em Cós, concelho de Alcobaça, em 1241 (Martinho, 2011: 16) foi também fundada uma casa de religiosas, num local que já teria uma capela ou igreja dedicada a santa Eufémia. Não sabemos ao certo, se a paróquia já estava erigida aquando da criação da casa religiosa, que veio a ter a proteção do mosteiro de Alcobaça. Certo é que em meados do século XIII, o bispo de Lisboa, D. Aires Vasques deu o seu consentimento ao mosteiro de Alcobaça para a fundação de igrejas em territórios da diocese de Lisboa, tendo sido confirmada a delimitação da paróquia de Cós pelo papa Nicolau III em 1272, (Marques, 1998: 200-201) mas já em 1250 o vigário perpétuo de Cós “recebia dos cistercienses o pagamento de dez morabitinos portugueses cada ano” (Sousa; Gomes, 1998: 339).

Paróquias com orago de  santa Eufémia

Paróquias com orago de santa Eufémia

Ao contrário de Ferreira de Aves, o mosteiro de Santa Maria de Cós, não nos parece ter sido foco de irradiação do culto a santa Eufémia, dado que a igreja mais antiga que se conhece, existente nas redondezas é a da paróquia de Santa Eufémia de Penela, já na diocese de Coimbra, e que se situa a mais de 90 km de distância.

O local de culto a santa Eufémia, que encontramos mais a sul de Portugal é a capela de santa Eufémia na serra de Sintra, na paróquia de São Pedro de Penefrim – concelho de Sintra, já existente no século XIII (Pereira, 2005: 157-158). Não inventariamos nenhuma capela nas ilhas da Madeira e dos Açores. 

1.3 – Principais santuários, capelas e romarias dedicados a santa Eufémia  

A Associação de Reitores dos Santuários de Portugal, elaborou em 2012 a listagem de todos os santuários de Portugal, depois de ter consultado todas as dioceses de Portugal, que informaram quais eram os santuários que estavam canonicamente erigidos pela autoridade diocesana (Associação de Reitores, 2012).

Sendo Portugal um país de grande devoção a Nossa Senhora, não admira que nessa listagem de 160 santuários, 116 sejam marianos, seguidos por cerca de 25 cristológicos e os restantes 19 dedicados ao culto dos santos e santas. Dos 19 santuários dedicados a santos a virgem mártir santa Eufémia é a única santa que tem 3 santuários, seguida de santa Quitéria, com 2 (Associação de Reitores, 2012).Romarias santa eufémia

Dos 3 santuários dedicados a santa Eufémia, 2 pertencem à diocese de Lamego e ao distrito de Viseu; Penedono – Penedono e o de Parada do Bispo – Lamego. O outro santuário fica na diocese e distrito de Coimbra, na Serra da Moita – Mouronho, Moita – Tábua.

Mas o culto a santa Eufémia em Portugal está presente em muitos outros lugares em dezenas de capelas que mesmo que não sejam consideradas santuários por não estarem erigidos canonicamente, atraem milhares de devotos todos os anos.

Apesar do culto a santa Eufémia não estar espalhado por todo Portugal, nem ter tantas paróquias e capelas a ela dedicadas como é o caso de santa Bárbara, santa Luzia, santa Marinha, santa Maria Madalena, santa Cristina, ou santa Leucádia, arriscamo-nos a afirmar, que ela é, talvez, a santa que é mais festejada em todo o país, com as maiores romarias e que mais devotos atraem, excluindo é certo as festas marianas e cristológicas e dos santos populares; santo António, são João e são Pedro (Moreira, 2012: 105-108).

Fazemos esta afirmação, tendo por base o facto de santa Eufémia ser a única santa em Portugal com 3 santuários a ela dedicados e, o estudo apresentado na obra: “Romarias: um inventário dos Santuários de Portugal” (Romarias, 1996-98) que faz o levantamento dos principais santuários, lugares de romaria e peregrinações em Portugal.

Dos 484 lugares inventariados nesse estudo em Portugal Continental e Ilhas, 240 são dedicados ao culto de Nossa Senhora com as mais diversas invocações, 52 ao culto de Cristo, 130 ao culto dos santos e 62 ao culto das santas.

Santa Eufémia é a santa que apresenta mais lugares de culto com 21, ficando à frente de santa Luzia com 10 e de santa Barbara, santa Catarina, rainha santa Isabel, santa Marta e santa Quitéria, todas com 3.

Mesmo em relação aos santos, santa Eufémia, fica à frente, de santos tão populares junto do povo português, como santo Amaro que tem 20 lugares de culto, são Bento e são Brás com 16, santo Antão com 8 e santo António e são Bartolomeu com 6.

As principais romarias e lugares de culto dedicadas a santa Eufémia, inventariados no estudo “Romarias: um inventário dos Santuários de Portugal” são: Vide – Talhadas (Sever do Vouga), Podence (Macedo de Cavaleiros), Monte Ervedal – Felgueiras (Torre de Moncorvo), Monte de Santa Eufémia – Mouronho (Tábua), Póvoa de Midões (Tábua), Maçainhas de Baixo (Guarda), Quinta do Silva – São Miguel do Jarmelo (Guarda), Quadrazais (Sabugal), Paranhos da Beira (Seia), Sazes da Beira (Seia), Alto da Carriça – Alvarelhos (Santo Tirso), Soutelo – Mões (Castro Daire), Parada do Bispo (Lamego), Penedono (Penedono), Óvoa (Santa Comba Dão), Santiago de Besteiros (Tondela), Ranhados (Viseu), Touriz – Paraíso (Castelo de Paiva), Celorico da Beira (Celorico da Beira), Sameiro (Manteigas), Sangalhos (Anadia).

Distribuição do Culto de Santa Eufémia - Mapa de Portugal

Distribuição do Culto de Santa Eufémia – Mapa de Portugal

A estas 21 romarias e lugares de culto, podemos juntar mais 3 lugares, que também merecem figurar nesta listagem, pelo grande número de devotos que juntam nos dias de romaria. São eles: santa Eufémia dos Matos em Cepões – Viseu, santa Eufémia da Lavandeira – Carrazeda de Ansiães e Santa Eufémia do concelho de Pinhel.

Referencias:  

Associação de Reitores dos Santuários de Portugal (2012) Santuários de Portugal. (s.l).

Cardoso, Jorge (1657) Agiologio Lusitano dos Sanctos, e Varoens Illustres em virtude do Reino de Portugal, e suas conquistas: consagrado aos gloriosos S. Vicente, e S. Antonio, insigns patronos desta inclyta cidade Lisboa e a seu illustre Cabido Sede Vacante. Tomo II. Lisboa: Na Officina de Henrique Valente d`Oliveira.

Coisselier, Stéphane (2012) La construction administrative d’un royaume. Registres de bénéfices ecclésiastiques portugais (XIII-XIVe siècles). Lisboa: Universidade Católica Portuguesa, Centro de Estudos de História Religiosa.

Costa, Avelino de Jesus da (1950) Calendários portugueses medievais: estudo e texto. Braga: (s.n).

Costa, Avelino de Jesus da (1997-2000) O bispo D. Pedro e a organização da arquidiocese de Braga. 2. ed. refundida e ampliada. II Volumes. Braga: Edição da Irmandade de S. Bento da Porta Aberta.

David, Pierre (1947) Études Historiques sur la Galice et le Portugal. Lisboa: Portugalia; Paris: Les Belles Lettres.

David, Pierre (1942) Les saints patrons d’églises entre Minho et Mondego jusqu’à la fin du XIe siécle: étude d’hagiotoponymie. Separata da Revista Portuguesa de História, tomo. II. Coimbra: Faculdade de Letras.

Gonçalves, A. (2008) A comunidade cristã de Ranhados aos peregrinos de Santa Eufémia. 2ª ed. aument. Ranhados: Edição da Paróquia.

Livro Preto (1999) Cartulário da Sé de Coimbra. Coimbra: Arquivo da Universidade de Coimbra.

Marques, Maria Alegria Fernandes (1998) Estudos sobre a Ordem de Cister em Portugal. Lisboa: Colibri.

Martinho, Ana Margarida Louro Martinho (2011) Mosteiro de Santa Maria de Cós (Alcobaça): contributos para a sua conservação e valorização. Leiria: Folheto.

Moreira, Luciano Augusto dos Santos (2012) Santuário da Virgem Mártir Santa Eufémia em Penedono – História e Culto. Penedono: Santuário de Santa Eufémia – Penedono.

Pereira, Paulo (2005) Enigmas: lugares mágicos de Portugal – Montes sagrados, altos lugares e santuários. Vol. 6. Lisboa: Círculo de Leitores.

Ribeiro, Maria José Ferreira Homem (1995) Edição dos documentos medievais do cartório
de Santa Eufémia de Ferreira de Aves
. Dissertação de Mestrado em Paleografia e Diplomática, 2ª edição. Lisboa: edição do autor.

Rodrigues, Hélder (2002) A festa de Santa Eufémia Lavandeira: no contexto sócio-económico e cultural de Carrazeda de Ansiães: passado e presente. (s.l): (s.n).

Sousa, Cristina Maria André Pina; Gomes, Saúl António (1998) Intimidade e encanto: o Mosteiro Cisterciense de Stª Maria de Cós (Alcobaça). Leiria: Magno.

Viterbo, Frei Joaquim de Santa Rosa de (1798) Elucidario das palavras: termos e frases que em Portugal antigamente se usaram e que hoje regularmente se ignoram: obra indispensavel para entender sem erro os documentos mais raros e preciosos que entre nós se conservam. Tomo Primeiro; A-F. Lisboa: Na Oficina de Simão Thaddeo Ferreira.