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A Festa de Santa Eufémia em Penedono

 

A Festa de Santa Eufémia em Penedono

A festa de Santa Eufémia, em Penedono, faz-se em Setembro, no dia 16. Por essa altura, antigamente vinham as primeiras chuvas, os gados dormiam as últimas noites sobre as terras de pão dos lavradores, era ainda tempo de desfolhadas e adivinhava-se nos soutos a fartura das castanhas pelo tamanho dos ouriços.
Um formigueiro de gente vinha dessa Beira Transmontana, subia do Douro e de Além-Távora. Muitos chegavam de véspera para o arraial. Outros chegavam com o amanhecer, mal chegaria a luz para ler uma carta, como era costume dizer-se para lembrar essa hora ainda cinzenta da manhã.
A capela da Santa Eufémia ficava ainda longe da vila, para noroeste, um sítio ermo e vazio que talvez tivesse estado coberto de carvalhos e castanheiros num tempo distante. A capela, de sólida cantaria, tinha mais de cem anos mas não era a primeira. Uma vasta nave mal era suficiente para conter os ranchos dos romeiros, o altar da Senhora ficava ao fundo numa espécie de capela-mor onde as paredes brancas se foram enchendo de quadrinhos de milagres pintados há quase cem anos pelo Carlos Massa de Sernancelhe e por outros pintores de incerto génio que nem souberam assinar o seu nome na serena limpidez das histórias que contavam.
Ao lado da capela, para nascente, ficava a Casa dos Milagres, toda de boa pedra. Havia um balcão onde os mordomos recebiam as esmolas que vinham do pagamento das promessas. E havia uma espécie de tanque de pedra, uma tulha verdadeira, onde os romeiros despejavam alqueires de trigo oferecido como ex-voto, tanto o peso do trigo quanto o peso do menino miraculado que a Senhora curara de uma febre ou de um carbúnculo. Havia também quem trouxesse luvas cheias de trigo, mais as raparigas. Tinham prometido levá-lo na sua festa, em Setembro, caso desaparecessem os cravos que desfeiteavam as suas mãos de donzelas. E a Senhora lá as ouvia, coitadas. E elas lá andavam pedindo, batendo em nove portas, os grãos de trigo simbólicos do pagamento do milagre.
A festa tinha sempre procissão, andores, alguns carregados de ofertas em dinheiro, anjinhos, missa cantada e sermão. E foguetes. A capela ficava sempre cheia e havia gente que ficava à porta.
O terreiro à volta da capela cobria-se de tendas e havia ainda os balcões de pedra antigamente levantados como espaço de mercado. O sermão de Senhor padre contando os martírios de Santa Eufémia despejada num cerco de leões ouvia-se nos altifalantes até longe e, cá fora, o vozear era mais brando. E quando os senhores padres saíam para jantar “ em casa dos mordomos, a tarde já entrada, os romeiros puxavam dos farnéis ou sentavam-se nos bancos corridos de uma tenda e lona onde havia fartura de marrã, pães grandes vindos de Trancoso e vinho velho carregado em pipas de madeira.
Misturava-se depois a festa e a feira segundo o costume antigo. Comprava-se pão para semente, erva-molar aos alqueires, semente de nabo pequenas medidas de madeira, cestos vindimos, cobertos de papa. E tamancos e outro calçado, artigos de latoeiros, linho, em adeitos, outro já tecido, realejos, cornetas de barro, panelas de Santa Comba para cozer as castanhas, tudo o que havia no mundo se comprava e se vendia na Santa Eufémia, em Setembro.
Ao fim da tarde o terreiro despejava-se. Os mordomos fechavam a capela. E os caminhos da serra voltavam a encher-se de romeiros.

Doutor Alberto Correia