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A espiritualidade do Martírio na actualidade

A espiritualidade do Martírio na actualidade

O martírio não se introduziu no mundo espiritual cristão com a morte de Estêvão, por obra do Sinédrio, nem terminou com a paz constantiniana. Embora historicamente o “martírio” te­nha sido prerrogativa dos crentes, cuja fideli­dade a Cristo lhes custou a vida, o valor semân­tico do termo é mais amplo. A noção de “testemunho”, a mais fundamental e primitiva, inclui a do mar­tírio. O testemunho é conatural à fé cristã, en­quanto esta implica atestar aquela verdade não abstrata, mas concreta para o cristão se identi­ficar com a pessoa e a história de Jesus. E será que o martírio também é conatural? O martí­rio dá mais a impressão de ser uma modalida­de contingente do testemunho, destinada a de­saparecer onde prevalecem a tolerância civil, o princípio da liberdade de consciência e os va­lores do pluralismo.

Se tomarmos por base o uso linguístico, tere­mos uma indicação favorável à actualidade do testemunho. Com efeito, enquanto o “testemu­nho” goza de todas as simpatias dos cristãos dos nossos tempos, o “martírio” é encarado com de­sinteresse; é visto mais como fenómeno do passado do que uma coisa do presen­te. Na época patrística, o mártir constitua o modelo do cristão perfeito. Hoje, apesar de todo o interesse pelo cristianismo tes­temunhal, não sabemos construir uma espi­ritualidade cristã sobre o martírio.

Contudo para alguns a marginalização do martírio do horizonte espiritual do cristão parece suspei­ta. O esqueci­mento da “seriedade” do caso suscitado pela cruz e pela ressurreição de Cristo provoca a atenuação do mistério, a perda da identidade cristã, a fuga para um amanhã utópico diante do futuro do mundo; junto com a disponibili­dade para o martírio, os cristãos modernos têm perdido também o legítimo orgulho do no­me cristão, preferindo o anonimato.

O Concílio Vaticano II não tinha inicialmente isenções de falar do martírio, contudo apresentou este belíssimo texto, em que o martírio, aparece numa perspectiva sempre aberta para a Igreja de Cris­to: “Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram chamados a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os perseguidores….embora seja concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-I’O no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja”(LG 42).

Deste modo a actualização da Igreja não deve visar, à eliminação definitiva do martírio na vida espiritual do cristão, porém antes a um martírio que se mostra quase evidente.

Desde o princípio, que os cristãos têm cons­ciência de que com o mesmo acto com que ade­riam a Cristo tinham que enfrentar o mundo, pois nele estão potências contrárias à salvação que Deus lhes oferece em Cristo.

O carácter particular, mais místico do que éti­co, da fortaleza cristã justifica o vínculo essen­cial existente entre o cristianismo e o martírio. Ao mesmo tempo, permite-nos especificar em que sentido é actual para os cristãos do séc. XX a lembrança do martírio. Não se trata de desen­terrar e tirar a poeira de modelos heróicos do passado e do presente nem de instigar um grupo confessio­nal contra os princípios civis da tolerância e do pluralismo. O que se mostra legítimo e urgente é defender a profissão do cristianismo baseada na experiência pessoal da salvação mais do que em referências culturais. Como diz Von Balthasar, “o cristianismo que dá mártires não é o dos professores, mas o dos confessores. On­de se encontra e se experimenta a salvação, o cristianismo é caso sério; de contrário, todo o resto pode não passar de caso interessante”.

O martírio, como habitus permanente de au­têntica espiritualidade cristã, leva, o crente a perguntar-se em que está baseada a sua fé.

Outro motivo da actualidade da re­flexão sobre o martírio é o valor querigmático que ele ainda possui actualmente. Valor querigmático, não apologético. O martírio anuncia um mundo novo futuro, porém já substancialmen­te presente. A pregação cristã não percorre o caminho da conversão moral, como o fez João Batista, nem o da previsão da catástrofe cósmi­ca, como fazia a apocalíptica judaica. A prega­ção do reino de Deus que Jesus fez partiu do anúncio das bem-aventuranças. E o martírio também é uma bem-aventurança: “Bem-aventu­rados sois, quando vos injuriarem e vos perse­guirem e, mentindo, disserem todo o mal con­tra vós por causa de mim. Alegrai-vos e regozi­jai-vos, porque será grande a vossa recompen­sa nos céus, pois foi assim que perseguiram os profetas, que vieram antes de vós” (Mt 5,11-12).

O martírio converte-se em sinal do reino de Deus somente na lógica das bem-aventuranças. O seu conteúdo é a felicidade que tem a esperança como dimensão essencial, já que participa da tensão entre o “já” e o “ainda não”, que é própria do reino de Deus. A felicidade do cristão está baseada numa promessa. Os que são declarados “felizes” nas bem-aventuranças não o são em virtude de sua situação, mas como consequência da vontade que Deus tem de lhes reservar o reino. Nem a pobreza, nem a fome, nem a aflição, nem o martírio dão a bem-aventurança. Somente a condição nova que prosseguirá a demolição da desordem actual fará dos infeli­zes de hoje os destinatários da riqueza do rei­no, em que Deus saciará a fome e enxugará as lágrimas. O anúncio de uma bem-aventurança ligada aos estados de pobreza, de tristeza, de opressão violenta só é possível no horizonte de esperança escatológica. Sem esta, sentir-se fe­liz em tais situações seria verdadeiro masoquis­mo e favoreceria a alienação social. A bem-­aventurança numa situação de tribulação pos­sui efeito querigmático: anuncia e assinala que as ideologias que mantêm a opressão não passam de tigres de papel.

Os seres humanos tocados por este tipo de bem-aventurança são de têmpera especial. Em­bora “não sejam protagonistas da revolta directa contra os poderes opressivos, ameaçam-nos muito mais perigosamente do que os revolucio­nários. Os mártires protestam contra uma situação em que domina o mal. Mas vêem perfeita­mente que não só os oprimidos, mas também os opressores, são vítimas deste mal. Antecipam deste modo a inversão radical da condição hu­mana. O vencedor de hoje acabará sendo ven­cido; não pela teimosia do mártir, mas pela força que o sustenta e que constitui o “eu maior” a que o mártir se entrega; uma vitória que não humilha o vencido, mas que o liberta”. O martírio é anúncio da fidelida­de de Deus, colocado diante de um mundo onde a injustiça triunfante se transformou em enfermidade. Ter o martírio diante dos olhos significa para a Igre­ja de hoje assumir a devida atitude em face do mundo; não a atitude de redenção acomodatí­cia nem a da provocação autocomplacente. Trata-se justamente da atitude dos mártires de to­dos os tempos, os quais souberam encontrar na promessa a luz suficiente para caminhar ao encontro do Senhor que vem, suportando a tribu­lação e sem nunca interromper o seu canto.

P. Luciano Moreira