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Teologia do Martírio na Igreja Católica

Teologia do Martírio na Igreja Católica

 

A teologia do martírio está inteiramente baseada na morte de Cristo e no seu significado. Cristo é o protótipo dos mártires: “Ele que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo. Assumiu a condição de servo, tornou-Se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte morte de cruz” (Fip 2,6-8).

Cristo é o servo sofredor de Iahweh anunciado por Isaías (Is 52,13-15; 53), que tem de sofrer e morrer para justificar a multidão (Is 53,11), que veio para dar sua vida como resga­te por muitos.

A salvação do mundo tem que se realizar atra­vés do sofrimento e da morte da testemunha do Pai (Mt: 16,21; Lc 17,25; 22,37), já que sem o derramamento de san­gue não há perdão (Hb 9,22). O Senhor “veio para os seus e os seus não o receberam” (Jo 1,11), mas ele “os amou até o fim” (Jo 13,1); foi entregue condenado à morte e crucificado. Deste modo consumou o sacrifício do amor, a fim de que tivéssemos a vida. A morte sacrificial de Cristo é o te­ma central de todo o NT. Faz-­se referência explícita a esta morte, ou pelo me­nos ela é pressuposta sempre que se trata da pessoa, da vida e da obra de Cristo e quando se propõem ensinamentos relacionados com questões tão fundamentais como a vontade salvífica de Deus e a história da salvação, a encarnação e a redenção, a fundação da Igreja, sua natureza e sua missão, os sacramentos (de maneira especial o baptismo e a eucaristia) e, na­turalmente, o sofrimento, a morte e a ressurreição.

Justamente porque a morte salvífica de Cristo na cruz é tão importante, compreende-se facilmente por que motivo sempre houve mártires na Igreja e por que razão como o afirma o Vaticano II continuam a existir mártires na Igreja.

Com efeito, Cristo exortou repetidas vezes os fiéis a tomar a sua cruz e a segui-lo pelo caminho real de sua paixão: “Aquele que não tomar a sua cruz e me seguir não é digno de mim. Aquele que encontra a vida vai perdê-la, mas quem perde a vida por causa de mim vai achá-la” (Mt 10,38-39 par.). E também: “Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas se morrer, produzirá muito fruto. Quem ama a sua vida perde-a e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna. Se alguém quer servir-me, siga-me; e onde estou eu, aí estará o meu servo” (Jo 12,24-26).

São estas palavras do Senhor que nos revelam a necessidade do sacri­fício e da mortificação na vida de todos os fiéis, que foram iniciados na vida cristã ao serem baptizados na morte de Jesus. Mas, ao mesmo tempo, a compreensão do que supõe esta inserção em Cristo evidencia que todos os cristãos, em virtude de seu baptismo, têm que es­tar sempre dispostos a morrer por Cristo e que, portanto, o associar-se a ele na entrega de si mesmo até a morte é o modo mais nobre de segui-lo.

Com efeito, “assim como Jesus, o Filho de Deus, manifestou sua caridade oferecendo sua vida por nós, ninguém tem maior amor do que aquele que oferece a vida por ele e por seus ir­mãos (cf. lJo 3,16; Jo 15,13)” (LG 42). No en­tanto e isto é importante para a compreensão teológica da realidade que estou a referir; o martíriopelo qual o discípulo se assemelha ao Mestre, que aceitou livremente a morte pela salvação do mundo, e se conforma a ele na efusão de seu sangue, é considerado pela Igreja como dom exímio e a suprema prova de amor” (LG 42).

O martírio e a vocação ao martírio não são o fruto do esforço e da deliberação humana, mas sim a resposta a uma iniciativa e a um chamamento de Deus, que, convida a este testemunho de amor, o ser da pessoa chamada, conferindo-lhe a capacidade de viver esta disposição de amor.

Ora, justamente em virtude da “união que Cristo estabelece gratuitamente com os homens, fazendo-os participantes de sua vida e, portan­to, de sua caridade, convertendo-os em mem­bros de seu corpo que é a Igreja e distribuindo a cada um segundo o beneplácito de sua vonta­de a medida da graça. O próprio Cristo conti­nua vivendo, em algumas pessoas escolhidas por ele e que correspondem livremente ao seu Espírito por diversos aspectos de sua vida e de sua actividade redentora, e especialmente esta suprema prova de amor”. Por cau­sa desta união vital entre Cristo e os mártires, membros do seu corpo, é o próprio Cristo que, pelo seu Espírito, fala e age neles: “Quan­do vos entregarem, não fiqueis preocupados em saber como ou que haveis de falar. Nesse mo­mento vos será indicado o que deveis falar, por­que não sereis vós a falar, mas o espírito de vos­so Pai é que falará em vós” (Mt 10,19-20).

É em virtude desta união, as perseguições não faltarão nunca à Igreja, “Bem-aventurados sereis quando vos injuriarem e vos perseguirem… Alegrai-vos e regozijai-vos, pois também perseguiram os profetas antes de vós” (Mt 5,11-12;). “Se me perseguiram a mim, também a vós perseguirão” (Jo 15,20). É a vida de Cristo que continua na sua Igreja.

Deste modo o martírio torna-se possível pela graça do Senhor, cuja força se manifesta plenamente na fraqueza, o que explica o ânimo e a perseverança sobre-humanos que tantos mártires manifesta­ram e manifestam. Esta verdade já foi compreendida nos pri­meiros tempos do cristianismo, como se deduz não só das actas dos mártires, mas também na ordem de não buscar o martírio nem expor-se imprudentemente a ele, mas deixar a Deus to­da a iniciativa, já que só ele pode dar a força necessária para enfrentar a provação.

Apesar do martírio ser dom e graça de Deus não significa que sejam suprimidas ou diminuídas pela graça a personalidade huma­na do mártir é a sua mais preciosa prerrogativa, que é a liberdade. Pelo contrário, segundo “os princípios gerais que governam a vida do Corpo místico de Cristo, as possibilidades da liberdade humana e do amor espontâneo são enri­quecidas e enobrecidas eminentemente pela graça; justamente no martírio a pessoa huma­na realiza, sob o impulso da graça, sua mais autêntica possibilidade de liberdade e de amor, já que, num só acto, dá a Deus toda a sua existência terrena e, num acto supremo de fé, de esperança e de caridade, abandona-se radical e totalmente nas mãos de seu criador e redentor”.

A grandeza desta entrega completa de si mesmo torna-se ainda mais patente quando se considera que o mártir não só enfrenta livre­mente a experiência trágica e tremenda da mor­te que ele, com uma palavra ou com um só ges­to, poderia facilmente afastar e despojar dos ele­mentos de violência dolorosa do mar­tírio, como também, e principalmente, ele aceita no seu coração jubilosamente esta mor­te como meio eminente de se associar absoluta e radicalmente à morte sacrificial de Cristo na cruz.

Ora uma vez que o martírio é o maior acto de amor, cons­titui o caminho mais nobre para a santidade. Com efeito, ao seguir Cristo até o sacrifício voluntário da vida, o mártir, “mais do que qualquer outra pessoa, é consagrado e unido ao Verbo encarnado, transformando-se na imagem de seu Mestre”.

A luz destas considerações, compreende-se facilmente o porquê da Igreja, ainda num tempo em que ainda não se havia desenvolvido a reflexão teológica, reconheceu o valor insuperável do martírio e os seus efeitos típicos de justificação e de santificação. Já logo nos primeiros tempos da era cristã, acreditou-se que os ca­tecúmenos que sofriam o martírio antes de se­rem baptizados na água tinham sido eficazmente baptizados no sangue, derrama­do por Cristo (baptismo de sangue).

Neste sentido, devemos interpretar que até os teólogos dos primeiros tem­pos que ainda não tinham compreendido com clareza, que todos os homens são julgados por Deus no momento da morte e recebem, já então, a sua retribuição, admitiam, no entanto, que o mártir era libertado imediatamente de todo o pecado e admitido em seguida na visão beatífica da Santíssima Trindade.

Finalmente, sempre foi crença comum que ninguém está mais perto de Deus nem participa mais intimamente da glória de Cristo ressuscitado do que os que morreram por ele, com ele e nele.

A teologia sistemática desenvolvida pelos grandes escolásticos e pelos teólogos modernos aprofundou a teologia do martírio, recorrendo sobretudo à teologia das virtudes, teologais e cardeais. Em primeiro lugar, destacaram que o martírio pressupõe fé profunda em Deus, isto é, não só aceitação intelectual da sua existência e da sua revelação, mas fé viva, adesão pessoal, que compromete toda a existência do homem. Baseado nela, o mártir põe toda a sua esperança em Deus e deixa confiantemente nas suas mãos tudo o que lhe é mais querido. É evidente que estas atitudes não podem subsistir quando não são inspiradas e sustentadas pelo intenso amor a Deus, amado por si mesmo e acima de todas as coisas, é que este amor, como todo acto autêntico de caridade, não abrange somente a Deus, mas estende-se também a tudo o que é seu e, portanto, implica igualmente o amor à Igreja e a toda a humanidade.

Mas no martírio exercitam-se, além disso, todas as virtudes cardeais. A opção dramática que o mártir tem que fazer entre Deus e a vida terrena constitui realmente uma opção prudente, já que se inspira numa sábia ponderação dos valores. Simultaneamente, atribui a Deus tudo o que lhe é devido, o que torna o mártir sumamente justo. É o triunfo do espírito sobre a fra­queza da carne e, portanto, uma sublime mani­festação da virtude da temperança. E é a de­monstração de fortaleza heróica, pois é ela se opõem todas as tendências do homem no sentido de conservar sua própria vida.

Aliás, no martírio o homem experimenta e aceita humildemente a sua total impotência e a necessidade absoluta de ser sustentado pela gra­ça; obedece até o fundo à vontade de Deus e deixa-se livremente privar de tudo o que pos­suía na terra, participando assim da extrema pobreza de Cristo na cruz.

Finalmente, o amor do mártir é um amor “casto”. Na entrega total a Deus, ama o Senhor da forma mais pura e imensa possível, com o cora­ção íntegro e total, encarando Deus como o úni­co necessário. Esta consideração, mais do que qualquer outra, introduz-nos no mistério de amor vivido pelo mártir, e ao mesmo tempo faz-nos ver a beleza escondida no seu heroísmo.

A teologia do corpo místico de Cristo e a da caridade teologal fazem-nos igualmente compreender as dimensões sociais e eclesiais do martírio. Se todo acto bom praticado por um membro do corpo místico redunda em benefí­cio deste último, isto vale sobretudo para o martírio, que é o acto supremo da caridade. Com efeito, o martírio é o acto privilegiado em que Cristo re­vive sua paixão salvífica e sua morte pela Igreja. Os sofrimentos do mártir são então, o sentido verdadeiro, os próprios sofrimentos de Cristo padecidos por ele não na sua natureza humana concreta, assumida hipostaticamente pela pessoa do verbo, mas sim nas pessoas humanas incorporadas à sua humanidade e que vivem da sua vida. Neste sentido, o mártir completa na sua carne, mais do que qualquer outro fiel, o que falta às tribulações de Cristo, e desta forma coopera eminentemente na obra salvífica do nosso Redentor.

Isto não quer dizer, que o martírio acrescente algo mais aos méritos de Cristo, que são infinitos por sua própria natureza; mas o próprio facto do mártir ficar tão intimamente conformado com Cristo contribui para a maior san­tificação de todo o povo de Deus e favorece, portanto, a aplicação dos méritos do Redentor.

A história da Igreja nascente e das missões confirma a extraordinária fertilidade apostólica do martírio e demonstra a verdade nesta exclamação de Tertuliano: “Sangue de mártires é semente de cristãos”.

O martírio é, um sinal escatológico, que pode ser a demonstração convincente de que os seguidores de Cristo crucificado e gloriosamente ressuscitado que não possuem bens na terra, mas que os devem procurar depois da morte.

Para terminar, o martírio demonstra a todos os homens a força vitoriosa de Cristo, que superou a morte, e o poder eminente do Espírito, que anima e sustenta seu corpo místico, a Igreja, na luta contra as potências das trevas e do mal.

 

P. Luciano Moreira