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O culto dos Mártires – exortação e interpretação do martírio na Igreja de hoje

O culto dos Mártires – exortação e interpretação do martírio na Igreja de hoje

 

Podemos pensar, que o martírio e os mártires é coisa do passado, que na sociedade actual, já não existem perseguições, mas infelizmente o martírio que esteve presente em toda a história da Igreja ao longo de vinte séculos.

O século XX, a par dos seus grandes avanços apresenta-se talvez como o mais sangrento de todos, os estudiosos calculam que, ao longo do século, 170 milhões pessoas tenham tido uma morte violenta, sem contar com os soldados que morreram nas guerras, o que faz que este século seja chamado o “século do martírio”. Só no ano 2000 morreram cerca de 160.000 vítimas de perseguições religiosas, especialmente nos países do chamado Terceiro Mundo.

Na encíclica, “No Limiar do Terceiro Milénio” o Papa João Paulo II faz questão de lembrar ao mundo a velha máxima de Tertuliano; «Sanguis martyrum, semen christianorum» na a qual; “A Igreja encontrou sempre, … uma semente de vida, esta célebre «lei» sujeita à prova da história, sempre se mostrou verdadeira. Porque não haveria de o ser também no século e milénio que estamos a começar? Talvez estivéssemos um pouco habituados a ver os mártires de longe, como se se tratasse duma categoria do passado associada especialmente com os primeiros séculos da era cristã. A comemoração jubilar descerrou-nos um cenário surpreendente, mostrando o nosso tempo particularmente rico de testemunhas, que souberam, ora dum modo ora doutro, viver o Evangelho em situações de hostilidade e perseguição até darem muitas vezes a prova suprema do sangue. Neles, a palavra de Deus, semeada em terra boa, produziu o cêntuplo (cf. Mt 13,8.23). Com o seu exemplo, indicaram-nos e de certo modo aplanaram-nos a estrada do futuro. A nós, resta-nos apenas seguir, com a graça de Deus, as suas pegadas.”

A Igreja dos primeiros séculos, embora enfrentando muitas dificuldades de organização, deu-se ao cuidado de deixar escrito em martirológicos o testemunho dos mártires. Actualmente esta tarefa não é fácil pois “no nosso tempo, os mártires voltaram muitos deles anónimos, «soldados desconhecidos», por assim dizer, da grande causa de Deus”.

Contudo João Paulo II diz-nos que: “A consciência penitencial não nos impediu, porém, de dar glória ao Senhor por tudo o que Ele fez ao longo dos séculos, de modo particular neste último que deixámos para trás, assegurando à sua Igreja uma longa série de santos e de mártires”. Do mesmo modo o Papa diz-nos que o ano do Jubileu beatificou ou canonizou muitas destas testemunhas.

Do mesmo modo “Muito se fez também, por ocasião do ano santo, para recolher as memórias preciosas das Testemunhas da fé do século XX. … É uma herança que não se deve perder, mas fazer frutificar num perene dever de gratidão e num renovado propósito de imitação”.

Como vemos a Igreja não esquece aqueles que dão testemunho da sua e sofrem o martírio ainda actualmente. A constituição Sacrosanctum Concilium ainda que sem falar explicitamente dos mártires diz-nos que: “A Igreja, segundo a tradição, venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens. É que as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar

O martírio actualmente está presente mais do que nunca na Igreja, assim deste modo os cristãos de hoje a exemplo do que fizeram Padres da Igreja, são exortados ao martírio como à vinte séculos atrás: “Desde os primeiros tempos, e sempre assim continuará a suceder, alguns cristãos foram chamados a dar este máximo testemunho de amor diante de todos, e especialmente perante os perseguidores.” Esta é a mensagem que o Concílio Ecuménico Vaticano II lança a todos os baptizados na constituição dogmática “Lumem Gentium”, o martírio que “embora seja concedido a poucos, todos, porém, devem estar dispostos a confessar a Cristo diante dos homens e a segui-I’O no caminho da cruz em meio das perseguições que nunca faltarão à Igreja”.

A exortação que a Igreja nos lança é clara, todos devemos estar dispostos a confessar Cristo Também nos avisa que a as perseguições nunca faltaram à Igreja, contudo não devemos ter medo “Por esta razão, o martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor”.

P. Luciano Moreira