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Relatos e tradições da Romaria de Santa Eufémia de Penedono

Festas e Romaria da Santa Eufémia[2]

 

Chegava Setembro e com ele a Santa Eufémia, a 15 e 16. Que romaria sem par aquela beleza do dia 15 para o dia 16! A alvorada de fogo era feita do castelo e as bandas de música chegavam às 9h do dia 15, davam volta à vila e tudo ficava doido de alegria. Eram duas bandas, a que tocasse melhor e mais tempo ganhava um prémio. Os botequins, com as suas rendas lindíssimas, laços, balões. As pessoas punham-se ao desafio para ver qual era o melhor e mais bonito. Vendiam o café em enfeteiras grandes, broinhas que eram uma especialidade, cavacas, pães leves. Iluminavam os botequins com gasómetros. Que beleza nocturna. Da parte de baixo, ficavam as barracas de comes e bebes. Eram muitas. Toda a gente ia comer a marra à Santa Eufémia. A marra era carne de porco, uma espécie de torresmos com batatas aferventadas. O arraial era lindíssimo, com muito fogo de artifício. Toda a gente dançava ao toque das bandas. Só se viam cabeças a rodar. Ninguém ficava indiferente à música. Não havia idade. No dia 16 era a festa religiosa: Missa, sermão e, a seguir, a procissão, acompanhada pelas bandas e fogo de artifício. A procissão tinha um grande percurso, num silêncio onde se ouviam soluços e lágrimas. Toda a gente tinha os seus problemas e vinham cheios de fé de que a Santa Eufémia lhes ia valer. Era comovente a despedida. Tiravam os cordões de oiro do pescoço e punham na imagem, assim como os brincos, as argolas, os anéis. Até as pessoas que iam amortalhadas deixavam os seus vestidos, as tranças do cabelo. O que mais me impressiona são os quadros tão lindos, feitos pelos pacientes, onde contavam o seu sofrimento e a sua agonia e desespero de terem desaparecido alguns. No entanto há bastantes pessoas que não têm sensibilidade e são capazes de destruir coisas tão valiosas.

Também desapareceu a imagem da Santa Eufémia do Douro. Era uma imagem muito bonita, com o vestido e o manto como tem a Santa Eufémia da Serra e com uma palma. Foi substituída por uma imagem de betão.

Esqueci-me de dizer que a Santa Eufémia, além de romaria pagã e religiosa, também era uma feira anual muito importante.

Havia a rua dos ourives, dos sapateiros, dos tecidos, dos linhos. Mas o que mais encantava a pequenada e não só, as pessoas crescidas também gostavam, eram as barracas dos brinquedos feitos de madeira e de lata. Eram feitos com uma grande perfeição, tudo à mão, depois pintados com cores berrantes. Ali havia de tudo, desde camionetes a bicicletes, assobios, bonecos. Eram brinquedos lindíssimos! Também não faltavam as amêndoas de Moncorvo, uma especialidade feita aos picotinhos. Eram as amêndoas de Moncorvo que a minha Mãe mais apreciava. Andava sempre a falar na Santa Eufémia para comer as amêndoas de Moncorvo. Havia amêndoas de açúcar e amêndoas de canela. A minha Mãe gostava das duas qualidades.

 

 O Soalheiro do Zé – A Santa Eufêmia – uma canção de amor em granito com algumas desafinações “modernistas”[3]

 

… vejo a capela de santa Eufêmia, e a encosta onde ela se situa. E um filme de tantas recordações ligadas à “nossa” santa, se vai desdobrando na minha cabeça enquanto a madorra me toma, já nem sei se sonho, se recordo… Mas também pouco importa, porque o que “vejo” agora, é o que a santa Eufêmia me deu para ser o que eu foi e sou. A primeira imagem ligada à santa Eufêmia que eu retanho, é uma sopa comida na tenda da “Sareu”, uma tão boa, tão sorridente, tão “santa” velha vizinha minha, que era padeira de todos os dias e com barraca de almoços e jantares nos dias de arraial e festa da santa Eufêmia. Ainda parece que guardo o bem que me soube essa sopa de massa e arroz, comida no fim da missa e procissão…

E, depois, lembro-me também da corneta de barro que o meu pai me comprou, num tendeiro de Penela… E foi sempre assim, a Santa Eufêmia para mim… lugar de gratas recordações, porque só nesse dia, eu tinha um pequeno presente, a romaria da “Santa” nos trazia os dias de festa ansiosamente aguardados. A Santa Eufêmia, a par da Senhora da Lapa e da Senhora dos Remédios, era a grande romaria das Beiras… Revejo os ranchos de gente que vinham para a romaria, em bandos, das povoações próximas e longínquas… E as moças e moços cantavam e bailavam, na praça, quando passavam na vila… e bebiam copos de vinho que o cansaço e as gargantas secas requeriam refrigério… Eles traziam bordoes grandes a que se arrimavam e que serviam também para ajustar contas de pendências velhas, ancestrais, entre povoações, lá no terreiro da Santa. Elas, um cesto à cabeça, onde vinha a merenda.

Um ou outro automóvel, uma ou outra caminheta traziam os romeiros mais endinheirados ou de mais longe… Daqui da vila, todos íamos a pé… e, na estreita estrada que subia o morro, pedintes, sentados na berma, exibindo chagas em carne viva, ou deformidades físicas, rogavam, numa lamúria cadenciada, “uma esmolinha por amor de Deus”… metendo dó lembro-me, tão bem, do “Anauzinho de Murça” beberrão e malcriado, que quando provocado desatava a língua no mais desbragado “asneiredo” e tomava posses obscenas fazendo fugir vermelhas de vergonha, mas a rir as raparigas solteiras e provocava “escandulã” nas mulheres casadas e viúvas, que se benziam, do “Máquina” da Vila da Ponte, um doidinho que se desfazia em “partes gagas” de nos fazer morrer a rir.

No arraial a filarmónica contratada tocava no coreto para todos, uns só ouvindo, outros também dançando, no terreiro, junto ao coreto ou do tanque… era um regalo, aquela música… ficava-se ali, a ouvir a banda e, nos intervalos desta, que os músicos não erram de ferro e precisavam de comer umas buchas e secar uns copos, os tocares de concertina tocavam o fado corrido. Então, cantadores e por vezes cantadeiras prendiam-nos ao seu estro repentista, em cantares ao desafio, cheios de uma saudável e mordaz brejeirice que nos arrancava palmas e risos… às vezes, por mor de um dito mais “apimentado”, ou uma “ousadia” menos consentida, armava-se uma zaragata… os varapaus erguiam-se e “abriam-se ao fresco” umas quantas cabeças… até aparecer o senhor regedor com os seus cabos de ordem. O mulherio gritava, as mães aflitas chamavam pelos filhos… era um banzé… que quase sempre acabava mais ou menos bem… com umas cabeças empanadas e muita palavras ameaçadoras de desforras futuras…Lá pela meia-noite, ia-se à barraca dos “chicheiros” comer a febra do porco assada e empinar uns copos, numa súcia alegre com os amigos… Que bem sabiam a febras no Valdemar ou no Luís do Fausto… Consulados, na alma e no corpo, de madrugada, aos “bordos” que o “vinhito” era trepador vinha-se para casa, dormir um pouco que ao outro dia, era a festa com procissão e missa cantada. Mas a Santa não estava na nossa vida, apenas nos dias da romaria em Setembro. Ela era a nossa “Santinha”, fazia parte do quotidiano das nossas vidas. Nas aflições grandes de cada um, era a santa que era chamada a ajudar… os aflitos faziam-lhe promessas… pela saúde do filho ou do animal doente, pelos sucessos nos exames dos filhos estudantes, pela vida dos entes queridos emigrados nos Brasis ou nas Américas… enfim por tudo que era preocupação das gentes… Lembro-me ainda de uma procissão feita, com a imagem da santa, para que a chuva viesse dessedentar a terra morta à mingua de água… A santinha a todos guardava, de todos era consolação… Todo se lhe pedia, muito se lhe prometia. Depois, era preciso cumprir a promessa, ir a pé, dar voltas à capela, muitas vezes até de joelhos, mandar pintar um “ex-voto” que desse notícia do” … milagre que fez santa Eufêmia…”, de que há ainda excelentes exemplares na paredes da capela…

Foi crescendo e os tempos foram mudando as coisas mais rápido do que eu crescia e mudava…

Acabaram-se os ranchos, porque agora, as pessoas só vão de carro… Acabaram-se os descantes, porque agora só se ouve a música pimba das cassetes; acabaram-se os cantares ao desafio, no arraial, porque agora se perdeu o vezo de cantar… só se ouve a música enlatada das cassetes… Meu bom Zé Lameiras, meu querido Claudino, vós que agora já sois apenas saudosas recordações, que já lá estais no céu dos bons, como era bonito ver-nos bailar e cantar no adro da santa…

Um outro dia do ano, também consagrado à santa Eufêmia era a segunda feira de Páscoa.

Quando eu era rapaz, íamos para a santa Eufêmia no fim de almoço. Homens e mulheres, rapazes e raparigas, e toda a canalhada, e, também, os pastores com os seus gados.

Cada pastor caprichava nos enfeites do seu rebanho. Os animais eram marcados com tinta colorida no dorso. Nas pontas dos cornos, pompons de lã de cores variegadas, no frontal da cabeça uma franja também de lã. E chocalhos de timbres vários… Os pastores iam implorar a bênção e a protecção da Santa para os ses rebanhos. O senhor padre abençoava-os. Os pastores, em preito de gratidão e homenagem, punham o rebanho a correr à volta da capela… As centenas de bichos, uns atrás dos outros, fechavam o cerco à capela, ficando sozinhos… até completarem o número de voltas da tradição e que, se a memória me não engana, eram uma dúzia, em círculo corrido e fechado. E era um espectáculo digno de se ver e ouvir… porque os sons misturados dos chocalhos, dos balidos dos animais, do ladrar dos cães, dos gritos dos pastores… eram música que ainda hoje tenho nos meus ouvidos…

Depois, o “Chumbinho” (que era o sacristão) leiloava o cabrito ou o anho que os pastores ofereciam à Santinha… Os homens bebiam uns copos… as mulheres cumpriam as suas devoções na capela e, juntavam-se, em magotes, para conversar, e “tesourar”, santamente, na vida alheia…

Eram estas “práticas” rituais de uma fé ingénua, mas verdadeira… Era um dos vários ritos de uma CULTURA do homem que vivia ligado à natureza, mas com uma ponte, um olhar para o sobrenatural…

 

 Barracas e Botequins[4]

 

Os “botequins“, muito vulgares nesta época eram ornamentados com colchas de renda e seda dispostas com uma certa arte e elegância (em forma de leque), sombreadas com mantas de borel. Segundo testemunhos da época, cada qual se preocupava em apresentar melhor o seu “botequim“, enfeitando-o com balões vindos do Porto, flores naturais e de papel.

Para atrair a freguesia e também porque era dia de festa, as proprietárias dos “botequins” apresentavam-se bem. Assim elas envergavam geralmente saia de merino preta, blusa de crepe e avental liso, normalmente cor-de-rosa, muito usado outrora nesta região. Penteavam o cabelo formando tranças que passavam de um lado ao outro da cabeça, arrecadas de ouro nas orelhas e ao pescoço o tradicional cordão de ouro, hoje muito usado.

Os “botequins” eram frequentados por pessoas socialmente mais favorecidas que ali se instalavam confortavelmente até altas horas da madrugada e ali conviviam toda a noite, conversando e saboreando o tão apreciado café que ainda hoje é a bebida preferida das pessoas desta terra.

Naquela época era feito em panelos de barro, ao lume, e segundo a expressão usada por uma das nossas entrevistadas “Não davam vencimento a fazer tanto café“. Para acompanhar havia os biscoitos, broas doces e pão-de-ló guardados numa arca de madeira.

Além dos botequins existiam também as barracas, menos luxuosas onde já se vendiam bebidas alcoólicas, refrescos de açúcar queimado, pirolitos, enguias, bacalhau frito, “comida de garfo” confeccionada em grandes potes de ferro e também o café e os biscoitos, pela noite fora.

Havia ainda outras barracas para quem preferisse a marrã e a tradição ainda hoje é respeitada.

À meia-noite tudo parava. Tinha chegado a hora do arraial. Havia fogo preso no lugar onde actualmente se situa o campo de futebol que também serve de parque de estacionamento de automóveis. Presentemente, a esta mesma hora há uma grande descarga de fogo de artifício.

No dia seguinte, feira anual de Santa Eufêmia vendia-se um pouco de tudo: tecidos a retalho, chapéus, louças, linho, cereais, fruta, doce de teixeira, amêndoas de Moncorvo, objectos de lata, entre outros, não esquecendo os ourives que sempre marcaram a sua presença nesta feira, desde o seu início.

As mercadorias dos comerciantes, naturais de Penedono eram transportadas à cabeça e em carroças e começavam a fazê-lo logo após a meia-noite.



[2] Lembranças da senhora Angelina Fonseca de Almeida da romaria de santa Eufémia in: Almeida, Angelina Fonseca de – Luzes do sincelo, p. 58.

[3] Artigo publicado no jornal Progresso de Penedono, N.º 8, 25 de Setembro de 1999.

[4] Texto de Verónica Coutinho, apresentado em 1996 no Centro de Formação de Professores do Douro e Távora – Direcção Regional de Educação do Norte, com o título: Feiras e Romarias – Economia, Culto e Cultura.